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Os Segredos Escondidos nos Glifos: Por Que os Símbolos da Astrologia São Como São

03/08/2026 · 6 min de leitura · Página 1 de 2
Os Segredos Escondidos nos Glifos: Por Que os Símbolos da Astrologia São Como São

Em 28 de outubro do ano 497, um astrólogo bizantino desenhou um horóscopo usando símbolos quase idênticos aos que qualquer astrólogo rascunha hoje em um guardanapo. O documento sobreviveu, foi catalogado por historiadores da astrologia grega e prova algo curioso: os glifos que usamos para representar planetas e signos não são invenção recente nem capricho estético de algum site de mapa astral. São um código visual com mais de mil e quinhentos anos de uso contínuo — e, em alguns casos, muito mais.

Um alfabeto com apenas três letras

Olhando com atenção, quase todos os glifos astrológicos — os doze signos e os dez planetas usados na astrologia moderna — nascem da combinação de três formas simples: o círculo, a cruz e o semicírculo (ou crescente). É como se o céu tivesse um alfabeto próprio, e esse alfabeto tivesse apenas três letras que se rearranjam para formar todas as palavras.

Numa leitura simbólica de tradição alquímica, cada forma carrega um significado: o círculo representa o espírito, aquilo que não tem começo nem fim; a cruz representa a matéria, o mundo concreto onde as coisas se realizam; e o semicírculo representa a receptividade — como uma antena aberta para captar algo maior. Quando você vê o glifo de Mercúrio, por exemplo, está vendo as três formas empilhadas em sequência: primeiro a receptividade, depois o espírito, depois a matéria. Não é acaso — é síntese.

Duas origens, dois tempos históricos diferentes

Uma curiosidade pouco comentada é que os glifos dos planetas e os glifos dos signos não nasceram juntos, nem no mesmo lugar. Os símbolos planetários remontam à fusão antiga entre astrologia e alquimia, quando essas duas práticas ainda caminhavam de mãos dadas com o que viria a ser a astronomia e a química. Pesquisas mais recentes situam as primeiras associações entre astros e figuras mitológicas na Mesopotâmia antiga, por volta do século 5 a.C., quando os babilônios já dividiam a eclíptica em doze partes iguais e ligavam cada planeta visível a uma divindade — Marte ao deus guerreiro Nergal, Vênus à deusa da fertilidade Ishtar.

Os glifos zodiacais, por sua vez, têm uma trajetória mais tardia e mais documentada. Segundo especialistas em história da astrologia, eles aparecem pela primeira vez em papiros gregos do período helenístico tardio, foram preservados e copiados por escribas bizantinos durante a Idade Média e só ganharam a forma estilizada que conhecemos hoje durante o Renascimento. Ou seja: quando você desenha o símbolo de Câncer ou de Sagitário, está repetindo um traço que passou por pelo menos três eras históricas diferentes antes de chegar até você.

O capacete alado escondido no glifo de Mercúrio

Poucos símbolos são tão literais quanto o de Mercúrio. Se você olhar o glifo — um semicírculo sobre um círculo, cruzado por uma linha vertical — está diante de um retrato em miniatura do deus romano Hermes-Mercúrio: o semicírculo no topo são as asas do seu capacete alado, o círculo abaixo representa o crânio (ou o rosto) do deus, e a cruz na base sugere o corpo ou o bastão que ele carregava como mensageiro dos deuses. É um glifo que funciona quase como um emoji antigo: uma imagem condensada contando uma história mitológica completa em poucos traços.

De Vênus e Marte aos símbolos de banheiro

Se existe uma curiosidade capaz de surpreender até quem nunca se interessou por astrologia, é esta: os símbolos ♀ e ♂, usados desde a Antiguidade para representar os planetas Vênus e Marte, são exatamente os mesmos símbolos que hoje aparecem em placas de banheiro, formulários e biologia para indicar feminino e masculino. A ponte entre esses dois usos tem nome, data e motivo — e não tem nada de mágico.

O responsável foi o naturalista sueco Carl Linnaeus, o mesmo que criou o sistema de classificação de espécies que usamos até hoje. Em 1751, na obra Plantae Hybridae, ele precisava indicar rapidamente qual planta era a “mãe” e qual era o “pai” em um cruzamento híbrido. Em vez de escrever palavras inteiras, ele emprestou os glifos astrológicos: Vênus para o progenitor feminino, Marte para o masculino. O motivo, segundo registros da época, era puramente prático — economizar espaço nas anotações de laboratório. Dali em diante, os símbolos migraram da astrologia para a biologia e, décadas depois, para a cultura visual do mundo inteiro.

Há ainda uma nota curiosa sobre os limites técnicos que moldaram essa história: em 1845, um médico americano criou uma notação alternativa — triângulos e quadrados para homens, círculos para mulheres — simplesmente porque a prensa gráfica que ele usava não tinha os tipos móveis de Vênus e Marte em seu conjunto. Às vezes a história dos símbolos é feita tanto de mitologia quanto de tipografia.

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